domingo, 25 de março de 2012

Botânica poética

                                                                                     Dedicado a Wesley Peres

Sou mãe, terra.
vagarosamente preparo meu solo útero
arado de sonhos e em metáfora revolvido
sementeio meu poema flor de versos pétalas
na terra morna de meu ventre cálice
encerro meu verso invólucro em gestação
e espero estação de alvorecer poema flor
o irradiar daquelas pétalas desconhecidas
tão familiares me dentro ventre
meu colo é solo fértil vaso de planta.

Me valho orvalho de regar versos
e sou barro ovário em gerar flor
arranco ventre afora erva daninha
e me abro ventre adentro em gineceu
de dor sou parto em planta poema
e em poema me abro de dor em dor
sai de mim poema flor de versos pétalas
em caule umbilical me existe vegetal
pois o poeta só é em ser chão
E eu sou, mãe terra.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Correnteza





Se me lágrima abaixo, sucumbo em rio
e contigo cachoeira me lanço precipício
em correnteza por entre pedras sou abraço
te entrelaço feito gota e envolvo seu doer
seco o rio de seu rosto com meus beijos
e espero em teu enlaço que o rio passe
sou contigo em ser rio mas não passo
faço forte e me encontro em seu leito.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

O nascimento da metáfora



Dedicado a Marcelo Rezende


Um dia me convergi em azul
vesti espinho e tranquei em baú
eu era casulo azul sem céu
pétala a prova de balas
e só.

Eu não tinha nenhuma metáfora quando te encontrei.

E eu disse não.
Não ao abraço dos olhos a dança das almas não a poesia nos dentes o giro dos braços não a sentir sangue vivo sentir sangue outro não a sentir-se completo o encaixe perfeito. Não a saudade em ser mais de si mesmo ser mais em si mesmo a saudade do outro presente do lado mas de quem tem saudade em saber que o relógio apressa o passo e muda o compasso só de saber estarmos a sós … não para o bem sem saber que o bem era o sim de nós dois.

Meu desejo tornou-se martelo, Lenine
vestia-se Vanessa da Mata em ilegalidade
e todo o poder Pedro Mariano.
Tão grande se fez bigorna
em olhos que se entregam
e fez o amanhã nascer melhor.

E de tanto negar inspirei meu sim
veio tão fundo que me permiti
transmutei-me em violeta de aurora
e nasci borboleta de casulo azul
finalmente me fiz a pétala da rosa
em que pouso borboleta
e que voo violeta no céu
Porque eu me fiz céu.

Nosso sim nos fez um
somente uma metáfora
- e a única que importa -
sobre aquilo que dá no coração.


quinta-feira, 4 de agosto de 2011

"Valiosidades" ou "O poema que não ganhou o concurso da farmácia"



Abraçar é ser pétala
em descobrir no outro
extensão de si mesmo
(foi o abraço das pétalas
que inventou a flor)
Abraçar é ser metáfora
ser o outro sem mudar de si
fazer casulo em corpo alheio
(foi o abraço das gotas
que tingiu o oceano)
Abraçar é ser poesia
inspiração em almas
vestidas de outras
(foi o abraço das palavras
que germinou o poema)


A força de um abraço desinventa o duplo
pois abraçar é ser pétala metáfora poesia
e muitas outras efemericidades valiosas
completude somente alcançada no outro
(através de um abraço forte)

terça-feira, 26 de abril de 2011

Um conto - Renascimento


Dizem que quem morre descansa. Entretanto, desde que morri, descansar foi a última coisa que fiz.
Não me lembro com clareza do que aconteceu quando eu estava indo para o trabalho esta manhã. Só me lembro de um estouro, dor no peito, e de repente me senti suspenso no tempo e no espaço. Eu não tinha mais um corpo e tudo ficou leve. Era como estar de volta ao ventre da minha mãe, eu sabia disso embora não soubesse como. Foi então que eu vi. Um enorme pássaro feito de fogo voando na minha direção. Sua luz dourada iluminava tudo ao redor, embora tudo o que eu conseguisse ver fosse o próprio pássaro. Senti o calor dele em meu rosto, e depois se espalhando pelo corpo. Não senti medo. Essa era a minha fênix.
O fogo me rodeou e eu me senti bem. Tudo o que eu via era fogo, e então me senti caindo. Foi uma queda curta, e quando dei por mim, estava em um quarto. A fênix tinha ido embora e a ausência dela me fez estranhar a iluminação do lugar. Não havia nenhuma janela e nenhuma porta naquele quarto. Tive medo. Olhei ao redor como que procurando ajuda e vi, em um canto, uma pequena chama branca. Cheguei perto e reparei que aquele não era um fogo comum, ele parecia dançar. Estiquei a mão e a chama veio ao meu encontro, como se também estivesse curiosa a meu respeito. Ela plainou na palma da minha mão e de repente entrou em mim, na altura do coração. Me assustei, mas o medo que eu sentia instantaneamente desapareceu e deu lugar a um sentimento de poder. Eu era capaz de fazer qualquer coisa. E o que eu mais queria era sair daquele quarto e voltar pro meu corpo.
Renovado pelo poder da chama, comecei a procurar algo que pudesse me levar pra fora daquele quarto. Examinei as paredes por alguns minutos, mas não encontrei mais do que a própria parede. De repente vi, num lugar que eu já havia examinado anteriormente, algo que não estava lá antes. Um pedaço de giz branco. Não entendi como aquilo poderia me ajudar a sair dali, mas peguei-o assim mesmo. Examinei o giz por uns instantes, e então entendi o óbvio. De um salto alcancei a parede oposta e comecei a desenhar a única coisa que poderia me tirar dali: uma porta. Parei diante da porta desenhada e me senti meio idiota, imaginando se aquilo ia funcionar. Mas se eu não tentasse ia ficar ali pra sempre, então me concentrei. Fechei os olhos e desejei estar na rua da minha casa. Quando abri os olhos, o meu desenho tinha se transformado em uma enorme porta de ouro maciço. Fiquei tão hipnotizado com a beleza da porta que até esqueci meu desejo de sair dali. A porta, toda trabalhada em alto relevo com hieróglifos egípcios, me pareceu familiar. Vi o desenho de um pássaro e reconheci nele a fênix, que parecia ser o hieróglifo mais brilhante. Depois de muito tempo examinando a porta, de repente voltei a mim e me lembrei do motivo pelo qual a havia conjurado. Mal me deixei pensar. Me lancei pra fora do quarto.
Senti um enorme alívio quando reconheci a rua da minha casa, mas logo percebi que algo estava errado: Havia névoa por todos os lados. Corri pra minha casa, mas ao empurrar o portão percebi que ele estava trancado. Vasculhei os meus bolsos, mas não havia chave alguma, e o muro parecia muito mais alto do que eu me lembrava, não dava pra pular. Dei as costas para o portão e observei a rua. Tudo estava completamente deserto, não havia o mínimo sinal de vida por ali. Então eu percebi que tudo estava ficando cada vez mais enevoado. Se eu não arrumasse um jeito de sair dali, logo não conseguiria enxergar mais nada. Comecei a correr, e passei por muitas ruas desconhecidas e desertas. Mas quando reparei que eu já não estava conseguindo enxergar quase nada em meio a névoa que se multiplicava rapidamente, corri ainda mais rápido e ao virar numa esquina dei de cara com o que eu menos esperava encontrar: Um bosque gigantesco. O verde do bosque contrastava fortemente com o cinza da cidade. Era a vida contrastando com a morte.
No instante em que entrei no bosque me vi cercado por ele. A cidade atrás de mim fora substituída por milhares de árvores imensamente altas. O verde ali se destacava por não ser um verde comum, era mais brilhante do que qualquer tom de verde que eu já tinha visto. A própria cor parecia possuir vida e fazer parte da alma do bosque. Nem todos os olhos do mundo eram capazes de enxergar a proporção da beleza do lugar. O vento parecia fazer as árvores dançarem. O próprio vento parecia dançar. Então eu ouvi algo diferente dos sons naturais do bosque. Eram vozes. Comecei a andar mais devagar, tentando enxergar entre as folhas e troncos de árvores. As vozes foram ficando mais altas conforme eu me aproximava e como tudo por ali, aquelas não pareciam ser vozes normais. Então, consegui enxergar por entre as folhas uma clareira, e no meio dela os seres mais extraordinários que eu já havia me deparado. Corpo de cavalo, tronco e cabeça de humanos. Eram seis centauros. Cinco deles pareciam ser bem jovens, e o outro, com cabelo e barba brancos e o corpo robusto, era a materialização da sabedoria. Embora eu me aproximasse com a maior cautela possível, o centauro mais velho não deixou de notar a minha presença. Silenciou no meio de uma frase e aguçou os ouvidos. Os outros centauros ficaram em silêncio. Estaquei, meus os olhos fixos no centauro que agora procurava algo entre a folhagem a minha direita. Então ele me viu e eu senti que aquele olhar podia ver muito além da matéria.
- Aproxime-se – Disse ele.
Trêmulo, desviei das árvores que me separavam da clareira e os alcancei. Me senti extremamente frágil diante daqueles seres tão altos, embora o que mais impressionava não fosse a altura, mas o ar mágico ao redor deles. O centauro mais velho se colocou a frente, me olhou profundamente, o que me fez sentir radiografado, ou no mínimo nu, e perguntou:
- O que o traz aqui?
Mas eu não sabia a resposta. Com tanta coisa estranha acontecendo, eu não havia parado pra pensar sobre o que de fato aconteceu comigo, e o que me levou pra fora do meu corpo e do meu mundo. Então eu disse:
- Eu acho que morri.
- Ainda há uma possibilidade.
- Uma possibilidade? – Repeti meio confuso.
- Preste atenção, meu jovem. Você precisa aceitar a sua condição animalesca. Só assim você poderá voltar ao que você chama de vida. Mas pra isso você precisa entender que não há separação. Há um só ser, transmutado em dois. Enquanto você não aceitar isso, vai ficar vagando entre os mundos. Mas seu tempo está se esgotando. Lembre-se: Há um só ser, transmutado em dois.
Aquelas palavras não faziam o menor sentido. O centauro mais velho falou com os outros em uma língua que eu não conhecia e então os três lançaram-se bosque adentro, me deixando sozinho com minha confusão na clareira. Senti as palavras dele martelando na minha cabeça. Aquilo devia fazer algum sentido pra mim, mas eu não entendia como. Entrei novamente no bosque e me pus a andar sem rumo. Após alguns minutos de caminhada comecei a ouvir som de água. Devia ter um rio passando por perto. Segui o som e o encontrei. Não era um rio muito largo, mas era muito bonito. Sentei às suas margens e deixei meu pensamento vagar. O que seria de mim agora que eu estava morto? Eu ia ficar nesse bosque pra sempre? Logo eu, que sempre acreditei que a morte era o fim, me vejo nessa loucura toda que é estar morto. Não havia luz no fim do túnel. Não pra mim.
Não sei quanto tempo fiquei sentado na terra às margens do rio. Só sei que de repente tudo ficou escuro, como se a noite tivesse caído em questão de segundos. Olhei pra cima e vi uma enorme mancha escura se aproximando. Não tive tempo de correr. O gigantesco dragão vermelho pousou bem na minha frente, do outro lado do rio. Fiquei petrificado. Aquele animal possuía um ar extremamente selvagem e ao mesmo tempo mágico, e eu fiquei entre o deslumbramento e o total terror. Se eu ficasse imóvel, talvez ele não me notasse, mas no exato momento em que eu pensava nisso, os pequenos olhos negros do animal encontraram os meus. Só tive um segundo pra reagir. O dragão levantou voo pra me atacar. Eu me lancei o mais rápido que pude na direção oposta. Entrei no bosque a um milésimo de segundo das garras dele me alcançarem. Mas por mais que eu corresse, continuava em baixo da sombra do animal, que me seguia voando sobre as árvores. Então sem querer entrei em uma enorme clareira. Não parei de correr, talvez eu conseguisse chegar ao bosque novamente antes do dragão me alcançar. Mas eu estava errado. Um segundo depois eu estava no chão. Fui derrubado pelo animal, que agora havia pousado e seu enorme focinho estava a centímetros do meu rosto, soltando fumaça. A boca aberta exibindo milhares de dentes afiados. Eu era uma presa fácil. Me desesperei. Será que eu poderia morrer de novo? O dragão me encarava como que admirando a presa do dia. Tinha acabado pra mim. Outra vez.
Mas então percebi que havia ainda uma pequena chama branca dentro de mim, que me dizia que eu era capaz de fazer qualquer coisa. A chama. Era óbvio. O fogo era a resposta que eu precisava. Foi só então que eu entendi o que o centauro me disse. Há um só ser transmutado em dois. Eu era o fogo, a pequena chama me fez entender. Eu era o fogo da fênix, porque eu era a própria fênix. Então eu senti meu corpo formigando. Olhei para os meus braços e os vi entrando em combustão, se alongando e criando penas de fogo. Me entreguei à fênix e me transformei nela. Levantei voo e saí debaixo do dragão. Furioso na eminência de perder a caça, ele começou a cuspir fogo, o que só me fortaleceu. Voei pro alto, muito alto, o mais alto que eu pude e então tudo ficou branco. Me senti suspenso no tempo e no espaço, a mesma sensação de estar de volta ao ventre da minha mãe.
E então lá estava eu, atirado no asfalto. Sentindo uma enorme dor no peito e todo o conhecido peso que é estar vivo. Vivo novamente. Renascido.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Angelicalidades





um anjo me alvorece
todos os dias
em hálito de planta
do escuro de sua nobreza
órfica e constante
- só por ele aconteci

  
(Quando eu era criança
me disseram que cama desarrumada
o afastaria a medida que eu me afastasse.
Tive medo)


enquanto olho além janela
no abstrato da intuição
meu anjo sem metáfora
me existe em olhos
de escutar muito além
quando fechados


(Ainda quando criança
vi na TV que eu o veria se fechasse os olhos
e eu vi.
Criança sabe de tudo mesmo)

e hoje vejo em asas
de capa de filme
a materialização da
existência órfica de
meu anjo metafórico
                           (Ele é.)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

retrato II

faço casa em porta-retrato
lugar de fazer pássaro um segundo
fito-me em foto de constante último suspiro
um palimpsesto em branco e preto
revelado na coleção desconhecida de mim
porque as fotos não se repetem